Naquele dia – e nos próximos – o céu estava ferido, e sagrava vinho. Vinho preto, como o chá. Vinho tédio, vinho rotina, vinho fraqueza. Ele tomou o vinho, ao invés do chá – e pagou por isto. A vida lhe ensinou assim. A vida – como ele a conhecia – era fria, era grande, era um filme intangível. Um filme que existia em sua mente, mas que não saia do início em sua realidade. Porém, a vida lhe ensinou isso. A vida lhe ensinou a procurar, encontrar, crescer pelas próprias pernas, conquistar. Um exemplo? Essa palavra não existia para ele. Seu único exemplo se chamava: dureza.
A dureza que ele aprendera, homem nenhum conhece. É a dureza mais forte do mundo. É bonita de se ver, difícil de se viver. É a dureza do coração, dureza do espírito. É a dureza sem nome, é a dureza da vida, dureza da sua vida. Todos o invejam pela dureza que ele possui. E ele inveja a todos pelo o resto que lhe falta.
Talvez um dia – se parasse de beber desse vinho – essa tal dureza se torne apenas benigna, e não se transforme em uma úlcera qualquer. Porém, hoje, não. Hoje ele tomou do vinho novamente. Tomou e notou algo estranho. Hoje, esse vinho tem gosto de chá. Chá vermelho. Chá novo. Chá esperança…
Engraçado esse gosto. Parece vinho, mas é chá. Parece rotina, mas é esperança. Esperança de um dia sair desse abismo sem fim. Abismo que ele próprio criou. Abismo úmido, frio, escuro. Escuro como o vinho que sempre tomara. Ele fora a cova e o coveiro. A flor e o asfalto. A caça e o caçador.
Talvez não seja o chá que tenha iniciado sua cura. Não se sabe se haverá cura. Não se sabe se a dureza será necessária nessa nova jornada. O que se sabe é que a luz iluminou seu rastro e sua frente. Agora, só resta seguir o caminho certo, sem hesitar, sem resistir, sem duvidar. Drummond estava errado. O poeta nunca é pobre, só o tempo que é pobre.


