Estranha escuridão…

•16/01/2010 • 3 Comentários
  
 
Apanhe sua xícara chá vermelho. O chá mais vermelho que existe. Chá preto. Preto escuridão. Aquele preto mais sombrio, mais frio, mais intenso. 

Naquele dia – e nos próximos – o céu estava ferido, e sagrava vinho. Vinho preto, como o chá. Vinho tédio, vinho rotina, vinho fraqueza. Ele tomou o vinho, ao invés do chá – e pagou por isto.  A vida lhe ensinou assim. A vida – como ele a conhecia – era fria, era grande, era um filme intangível. Um filme que existia em sua mente, mas que não saia do início em sua realidade. Porém, a vida lhe ensinou isso. A vida lhe ensinou a procurar, encontrar, crescer pelas próprias pernas, conquistar. Um exemplo? Essa palavra não existia para ele. Seu único exemplo se chamava: dureza.

A dureza que ele aprendera, homem nenhum conhece. É a dureza mais forte do mundo. É bonita de se ver, difícil de se viver. É a dureza do coração, dureza do espírito. É a dureza sem nome, é a dureza da vida, dureza da sua vida. Todos o invejam pela dureza que ele possui. E ele inveja a todos pelo o resto que lhe falta.

Talvez um dia – se parasse de beber desse vinho – essa tal dureza se torne apenas benigna, e não se transforme em uma úlcera qualquer. Porém, hoje, não. Hoje ele tomou do vinho novamente. Tomou e notou algo estranho. Hoje, esse vinho tem gosto de chá. Chá vermelho. Chá novo. Chá esperança…

Engraçado esse gosto. Parece vinho, mas é chá. Parece rotina, mas é esperança. Esperança de um dia sair desse abismo sem fim. Abismo que ele próprio criou. Abismo úmido, frio, escuro. Escuro como o vinho que sempre tomara. Ele fora a cova e o coveiro. A flor e o asfalto. A caça e o caçador. 

Talvez não seja o chá que tenha iniciado sua cura. Não se sabe se haverá cura. Não se sabe se a dureza será necessária nessa nova jornada. O que se sabe é que a luz iluminou seu rastro e sua frente. Agora, só resta seguir o caminho certo, sem hesitar, sem resistir, sem duvidar. Drummond estava errado. O poeta nunca é pobre, só o tempo que é pobre.

No sinal fechado…

•07/11/2009 • 2 Comentários

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Uma idéia. Uma idéia surge na sombra de seu pensamento em plena tarde de calor intenso, rotina estressante e cabeça vazia. O sol não nasce como antigamente. Nasce, e até brilha. Mas, ultimamente, seus óculos escuros de rotina escurecem aquele raio, aquele gesto, aquela idéia.

O copo de água está ali, continua ali, mas não sacia a sede mais. Todos foram embora. Todos escureceram mais seus óculos, todos cavaram a cova, todos tiraram sua vontade de beber água. A idéia está perdida na imensidão da cabeça vazia. Perdida, mas continua lá.

Durante as tardes ao volante, a idéia persiste. As ondas de rádio entram e saem de seu ouvido, os sinaleiros abrem e fecham em sua mente, as pessoas continuam andando à sua volta, e a idéia persiste em mantê-lo alheio, distante, ensimesmado.

Talvez a frieza do mundo esteja esfriando sua mente. Talvez a frieza de seu novo mundo entre em paradoxo com seu velho mundo. Seu velho mundo persiste em sua mente, faz comparações, cria expectativas. Seu velho mundo sabe o que faz…

A idéia precisa de norte. Norte. Nortear, direcionar, conduzir… O som da música lá fora o incentiva. A cada ritmo intenso sua mente viaja, seus olhos se fecham e sua alma se distancia.

Como uma pipa descontrolada na brisa, todos nós vivemos momentos parecidos. Momentos que são esquecidos, mas que não se perdem. Momentos esses nos dizem quem somos, porque aqui estamos, aonde vamos… Afinal, quem dirá aonde o vento levará? Apenas apanhe seu chá vermelho quente.

(Re)nasce em vermelho…

•23/09/2009 • 6 Comentários

Em meio às xícaras de chá quente vermelho forte, chuvas em solo seco e desejo de filho pródigo, pergunto-me: Posso, sem armas, revoltar-me?

Assim como Drummond, se o tempo é pobre, o poeta é pobre.

Por essas e outras que decreto: Renasce uma flor. É feia, mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

A flor renasce em vermelho…

 
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